Saúde no exterior: a Experiência Simbólica de Cuidado
Saúde no exterior: a Experiência Simbólica de Cuidado
Mulher caminhando por uma rua típica holandesa com arquitetura clássica, ao lado de um canal com barcos atracados. A cena transmite a rotina e a integração cultural de quem vive o processo de imigração na Holanda.

Todo brasileiro que vive na Europa descobre, em algum momento, que o SUS é muito melhor do que costumávamos reconhecer. Não necessariamente em termos de estrutura ou eficiência, mas na experiência vivida de cuidado. Saúde no exterior não é como em casa.

O rastreio na Holanda: eficiência versus experiência subjetiva

Quando me registrei no sistema de saúde local na Holanda, fui imediatamente convidada, pela minha idade, a participar do rastreio de câncer de mama e de colo de útero. O processo foi rápido e organizado, sem filas ou dificuldades.

No entanto, algumas semanas depois, recebi apenas uma carta dizendo que estava tudo bem. Nenhuma imagem, nenhum dado detalhado, nenhuma explicação.

O que deveria ser alívio trouxe, inesperadamente, um sentimento difícil de nomear, algo próximo do desamparo. Essa experiência mostrou que, em relação ao cuidado de saúde no exterior, não falamos apenas de eficiência ou protocolos médicos, mas também de como a psique reage à forma como somos cuidados.

Diferenças culturais e psicológicas no cuidado

No Brasil, estamos acostumados a perguntar, conversar e ver resultados. Existe um espaço intermediário entre o corpo e o diagnóstico, onde a experiência pode ser simbolizada. No exterior, por outro lado, esse espaço muitas vezes desaparece, e nossa reação psíquica se torna evidente.

Em outra ocasião, caí de bicicleta e fraturei um dedo. Mesmo com dor, optei por esperar uma viagem ao Brasil para buscar atendimento. Hoje percebo que não foi apenas uma decisão prática. Foi uma escolha atravessada por algo mais profundo, uma busca por um campo de cuidado que fosse subjetivamente familiar.

A visão junguiana: complexos materno e paterno

Do ponto de vista da psicologia junguiana, essas experiências ativaram camadas dos meus próprios complexos.

  • A ausência de explicação ou contato ativou meu complexo materno, relacionado ao cuidado, à contenção e à mediação afetiva.
  • Ao mesmo tempo, o sistema holandês, organizado e objetivo, expressa o complexo paterno, enfatizando estrutura, ordem e confiança na autoridade institucional.

Outros brasileiros na Europa podem viver situações semelhantes de forma diferente. Para alguns, a objetividade do sistema de saúde no exterior é eficiente e segura; para outros, pode gerar desconforto ou sensação de desamparo. Isso acontece porque cada pessoa traz uma história única de constituição de seus complexos materno e paterno, moldada por experiências e vínculos pessoais.

Imigração e individuação: o impacto psíquico da experiência de saúde

A imigração, nesse sentido, desloca não apenas fisicamente, mas também simbolicamente. Ela nos coloca em situações que ativam nossos complexos, revelando aspectos da psique que antes permaneciam invisíveis.

E é justamente nesse encontro com o desconhecido que se abre uma oportunidade de individuação: compreender e integrar essas experiências como parte do próprio crescimento psíquico.

Conclusão: a saúde no exterior como reflexão sobre cuidado e psique

Assim, experiências de saúde no exterior, mesmo que pareçam triviais ou objetivas, são oportunidades valiosas de reflexão sobre cuidado, corpo, psique e adaptação cultural. Para brasileiros vivendo fora, cada encontro com o sistema de saúde é também um encontro com si mesmo, com expectativas, medos e aprendizados que podem enriquecer o processo de autoconhecimento.

Aquele abraço 🤗,
Patrícia Salvaia

Psicóloga Clínica | CRP 06/191118
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